Cristião Rosas, do Global Doctors for Choice, chama atenção para os dados da Pesquisa Nacional do Aborto, que revela que uma mulher morre a cada dois dias após interrupção insegura da gravidez
Texto: Juliana Duarte | Foto e vídeo: Guilherme Almeida
Ela tinha 27 anos e estava grávida de 12 semanas. Se tivesse recursos financeiros melhores ou morasse em algum país onde o aborto é legalizado, Jandira Madgalena dos Santos poderia estar viva agora. O caso de uma morte anunciada, após um aborto clandestino malsucedido, ganhou repercussão nos jornais e canais de TV com o desaparecimento súbito de Jandira em agosto de 2014. O desfecho é assustador até hoje: o corpo foi encontrado carbonizado, sem as digitais nem a arcada dentária, dentro de um carro em Guaratiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro. O procedimento custou R$ 4,5 mil e a vida de Jandira.
Para o médico ginecologista e coordenador da Global Doctors for Choice do Brasil, Cristião Fernando Rosas, o aborto é um "seríssimo problema de saúde pública", responsável por uma morte a cada dois dias no País, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), coordenada por Debora Diniz, do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (ANIS), e Marcelo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB). O número é tão alto que a interrupção da gravidez é a quinta causa de mortes maternas no Brasil. "No mundo são 500 mortes por dia devido ao aborto clandestino. É um avião jumbo que cai e não faz impacto algum", critica.
Para o médico ginecologista e coordenador da Global Doctors for Choice do Brasil, Cristião Fernando Rosas, o aborto é um "seríssimo problema de saúde pública", responsável por uma morte a cada dois dias no País, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), coordenada por Debora Diniz, do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (ANIS), e Marcelo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB). O número é tão alto que a interrupção da gravidez é a quinta causa de mortes maternas no Brasil. "No mundo são 500 mortes por dia devido ao aborto clandestino. É um avião jumbo que cai e não faz impacto algum", critica.

Para o ginecologista Cristião Rosas, nem a medicina, nem a igreja, nem a justiça podem decidir pela mulher
"Aborto inseguro é uma definição da Organização Mundial da Saúde para aquela situação em que a mulher não está dentro de um ambiente hospitalar, com uma equipe tecnicamente treinada, que lhe ofereça acolhimento e suporte para não acontecer nenhuma complicação", define Rosas. Mas não é isso que acontece e essa realidade parece longe das brasileiras. Para o ginecologista, a sociedade, principalmente os jovens, precisa militar pela causa dos direitos humanos, sexuais e reprodutivos para mudar esse cenário. "Uma lei que proíbe o aborto e pode levar a mulher à morte é uma lei draconiana, retrógada, antiética e imoral. A discussão é feita de maneira torpe e não esclarecida. Precisamos ir à luta".
ABORTO MAL FEITO PODE TRAZER RISCOS
Quem passou pelo drama do aborto feito às escondidas, em condições precárias, pode até ter sobrevivido, mas nunca mais vai deixar de sentir o amargor da experiência. Foi assim com a ex-VJ da MTV, Soninha Francine, que interrompeu a gravidez em uma clínica ginecológica qualquer. Depois do procedimento, ela precisou ir a uma unidade de saúde para consertar o aborto mal feito, que provocou dor e sangramento. "Você se vê em um hospital, com soro e alguém medindo sua pressão, e percebe a diferença do local onde estava. Então pensa: o que eu fiz?", relembra.
O ginecologista e obstetra Thomaz Gollop, coordenador do Grupo de Estudos Sobre Aborto (GEA) conta que a escolha do método envolve questões tão diversas quanto condição financeira e nível do desespero. "Algumas mulheres usam até agulhas de tricô para tirar o feto, procedimento que pode ocasionar perfurações de órgãos, como útero e intestino, além de hemorragias", alerta.
O ginecologista e obstetra Thomaz Gollop, coordenador do Grupo de Estudos Sobre Aborto (GEA) conta que a escolha do método envolve questões tão diversas quanto condição financeira e nível do desespero. "Algumas mulheres usam até agulhas de tricô para tirar o feto, procedimento que pode ocasionar perfurações de órgãos, como útero e intestino, além de hemorragias", alerta.
O cenário teve leve mudança nos últimos anos. As brasileiras descobriram que um remédio, com princípio ativo misoprostol, voltado para tratamento de úlceras gástricas, era abortivo. Elas passaram a usá-lo como procedimento para interromper a gravidez, uma alternativa a métodos inseguros, como clínicas clandestinas e objetos introduzidos na vagina, que podem causar infecções e até causar esterilidade. "É um remédio caro, justamente por ser ilegal, que não é acessível à população pobre, mas que diminuiu o número de complicações", explica Gollop.
E engana-se quem pensa que o aborto clandestino é problema da mulher que procura o procedimento. No final das contas toda a sociedade paga indiretamente, já que a maioria dos casos acaba nos prontos socorros e hospitais públicos. Repórteres do Jornal O Globo calcularam quanto os governos gastam com complicações decorrentes do aborto, na maioria clandestinos. As informações são resultados de estudos e de dados encontrados no DataSus. Em 2013, foram 205.855 internações após interrupção de gravidez, sendo 51.464 espontâneos e 154.391 induzidos, entre ilegais e legais. Se levar em consideração que uma diária de internação no Sistema Único de Saúde (SUS) era de R$ 413, em valores da época, e que as mulheres passaram apenas um dia sob cuidados médicos, o Governo gastou em média R$ 63,8 milhões com abortos induzidos. No mesmo ano, 190.282 curetagens (método de retirada de placenta ou de endométrio), que custaram um total de R$ 78,2 milhões, foram realizadas. Na tabela do SUS, cada intervenção custa, em média R$ 411. No total, o Governo teria gasto, no mínimo, R$ 142 milhões.
E engana-se quem pensa que o aborto clandestino é problema da mulher que procura o procedimento. No final das contas toda a sociedade paga indiretamente, já que a maioria dos casos acaba nos prontos socorros e hospitais públicos. Repórteres do Jornal O Globo calcularam quanto os governos gastam com complicações decorrentes do aborto, na maioria clandestinos. As informações são resultados de estudos e de dados encontrados no DataSus. Em 2013, foram 205.855 internações após interrupção de gravidez, sendo 51.464 espontâneos e 154.391 induzidos, entre ilegais e legais. Se levar em consideração que uma diária de internação no Sistema Único de Saúde (SUS) era de R$ 413, em valores da época, e que as mulheres passaram apenas um dia sob cuidados médicos, o Governo gastou em média R$ 63,8 milhões com abortos induzidos. No mesmo ano, 190.282 curetagens (método de retirada de placenta ou de endométrio), que custaram um total de R$ 78,2 milhões, foram realizadas. Na tabela do SUS, cada intervenção custa, em média R$ 411. No total, o Governo teria gasto, no mínimo, R$ 142 milhões.
MÉTODO SEGURO
Gollop explica que o método utilizado no aborto legal é seguro. O procedimento varia conforme o tempo da gestação. "Até 12 ou 13 semanas, utiliza-se a aspiração manual intrauterina. Com instrumentos cirúrgicos, o produto conceitual é aspirado. É um método pouco invasivo, com pouco tempo de internação".
O ginecologista Cristião enfatiza a baixa taxa de mortalidade do método. "É o procedimento obstétrico mais seguro que existe: abaixo de oito semanas, o risco é de 0,0002 mortes a cada 100 mil mulheres. São necessários pouco mais de 3 milhões de procedimentos para acontecer uma complicação".
Cristião atende mulheres que engravidam após abuso sexual e explica como a vítima se sente. "Ela não faz conexão com o feto. Para ela, há um demônio no corpo que ela precisa se livrar. A mulher que foi estuprada não se sente grávida, se sente invadida". O sentimento é tão pessoal e íntimo que só ela pode tomar a decisão de interromper a gravidez. "É um momento cruel. Nem a medicina, nem a igreja, nem a justiça podem decidir pela mulher. E qualquer que for a escolha, a equipe de saúde deve apoiar. Não se pode fazer juízo de valores em uma situação tão grave como esta", conclui.
Rosas defende a descriminalização como a melhor saída para a diminuição de mortes decorrentes do procedimento clandestino. "As sociedades mais desenvolvidas perceberam que proibir não resolve porque existe uma diferença entre fazer um aborto seguro, em um ambiente adequado, do que fazer na clandestinidade, com aborteiros, sozinha ou com agulhas e venenos". .
Para o ginecologista, três fatores são essenciais para reduzir a taxa de aborto: descriminalização, política de planejamento familiar com contraceptivos acessíveis e educação sexual nas escolas. "Quando falamos de aborto, também estamos abordando temas como prevenção de gravidez e Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs)". Focar no jovem é transformá-lo em um multiplicador da ideia. "Ele espalha para os amigos, para os bairros vizinhos, sentindo que tem responsabilidade de orientar o próximo".
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece oito métodos contraceptivos, como informa o Portal Brasil. São eles: anticoncepcional mensal, injetável trimestral, minipílula, pílula combinada, diafragma, pílula anticoncepcional de emergência (conhecida como pílula do dia seguinte), Dispositivo Intrauterino (DIU), além de preservativos. De forma geral, a pílula anticoncepcional e o DIU são os procedimentos mais procurados pelo público feminino. O Ministério da Saúde possui uma cartilha online explicando todos os métodos, como usá-los e eficácia.

Brasileiras descobriram que remédio à base de misoprostol é abortivo
PROCEDIMENTOS
A interrupção voluntária da gravidez, ou aborto induzido, ocorre por meios cirúrgicos ou medicamentos. Pode ser realizada tanto por razões médicas admitidas por lei quanto clandestinamente. O aborto decidido a partir de avaliação médica é chamado de aborto terapêutico, já aquele provocado leva o nome de aborto eletivo.
Os abortamentos realizados por médicos, nas clínicas ou hospitais, podem ser feitos por sucção, dilatação do colo do útero e posterior extração mecânica do feto, curetagem e injeção salina, ou por medicamentos – via oral ou vaginal - que interrompam a gestação e provoquem expulsão do embrião. Em caso cirúrgico, a paciente pode levar anestesia local ou geral, dependente da decisão médica. A hospitalização é breve e o procedimento dura apenas alguns minutos.
O que geralmente causa sequelas ou leva mulheres até mesmo à morte são os abortamentos clandestinos. Nesses casos são usados métodos diversos, sem qualquer segurança. Entre os métodos estão agulha de tricô, chás abortivos, medicamentos de procedência duvidosa ou atendimentos em clínicas clandestinas para realizar o ato, o que aumenta os riscos de complicações sérias ou até mesmo fatais. Isso sem contar outros "profissionais" que fazem o procedimento em casa, sem qualquer tipo de anestesia, higiene nem estrutura adequados.
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