Aos 21 anos, a secretária interrompeu a gravidez, mas não se livrou do drama: "Foi horrível passar por isso"
Texto: Juliana Duarte | Foto e vídeo: Guilherme Almeida
"Eu não estava preparada nem psicologicamente nem financeiramente para ter um filho". A secretária Lílian* de 21 anos, moradora de Santos, litoral de São Paulo, escolheu começar a nossa conversa não com o método que usou para fazer um aborto, nem com o que sentiu quando descobriu que estava grávida do namorado. Preferiu explicar, logo de primeira, o que a levou até à decisão. Considerando-se sem condições para criar um filho, ela recorreu à interrupção da gravidez na quinta semana da gestação.
Ter o filho e colocá-lo para adoção não passou pela cabeça da secretária. Ela é adotada e antes de ser acolhida pela família que a escolheu, viveu em um abrigo. Nesse período, aprendeu que a experiência não é fácil. "Adotar não é um processo simples e há muitos meninos e meninas nesses lares". Entre eles, ficaram dois irmãos biológicos que até hoje ela não sabe onde estão.

Lílian* engravidou após métodos contraceptivos falharem
Foram 500 reais usados para conseguir três pílulas abortivas. Uma foi ingerida oralmente e, as outras duas, introduzidas na vagina. Ela fez tudo sozinha, seguindo religiosamente um tutorial que encontrou na internet. No território livre da web muitas páginas dão dicas, como chás e até quais objetos inserir para provocar o aborto. "Eu não queria morrer em um açougue qualquer e virar estatística", diz referindo-se à precariedade da maioria das clínicas clandestinas.
A secretária viveu a cena sozinha. O que aconteceu ficou entre o casal, alguns amigos e a redação de Um Quinto. "Nossa família não sabe, apenas desconfia porque eu vivia dizendo que iria tirar". Lílian fingiu por uma semana que estava sentindo dores fortes na barriga, tudo para preparar a família e dizer que tinha sofrido um aborto espontâneo.
Desde o começo, a secretária lidou bem em falar do assunto. Calma, explicou que sempre se protegeu com anticoncepcional e quando desconfiou que poderia ter engravidado, ainda fez uso da pílula do dia seguinte. Quando ingerida nos dias e horários corretos, a margem de segurança desse anticoncepcional é de 99%.
No caso de Lílian, nenhum método funcionou. "Eu tenho refluxo e se eu comer alguma fritura ou até mesmo beber café, eu vomito. Naquele período algo atacou meu estômago e acredito que coloquei os remédios para fora em algum momento", explica. Se esse foi o motivo, ela não sabe. A única certeza é que, semanas depois, se viu em casa, com um teste de gravidez positivo em mãos.
"Eu posso resumir aquele momento em desespero. Não sabia se eu ria ou chorava. Senti tanta raiva que só sabia falar mal do bebê, que eu não queria", relembra. Apaixonada por gatos, a secretária cuida de dois em seu apartamento. E quando seu pai disse que os animais poderiam trazer doenças para o futuro filho, ela ficou ainda mais desesperada. "Eu falava que preferia minhas gatas, que não queria bebê algum. Foi horrível".
Após a pesquisa, o caminho para chegar aos remédios foi percorrido ainda pela internet. Por meio de amigas que tinham vivenciado a mesma situação, Lílian conseguiu contato de um vendedor em uma cidade vizinha. Usando um aplicativo de mensagens instantâneas, combinou a compra e buscou as pílulas pessoalmente. "Foi um alívio quando consegui".
Com o remédio em mãos, a secretária fez tudo o que a internet e o vendedor indicaram. O cenário daquela noite de sexta-feira foi o banheiro pequeno do apartamento onde vive. Até hoje, ela lembra com detalhes o que aconteceu. "Era uma bola de sangue, que mal passava pelo ralo do banheiro", descreve.
Lílian preferiu passar sozinha pela experiência. "Foi horrível, nunca vi tanto sangue na minha vida". Foi quando a água do chuveiro começou a subir que ela chamou o namorado, que foi até a casa dela. "Eu chorei muito no dia, pois a pior coisa foi fazer isso sem alguém ao meu lado".
A secretária não teve complicações médicas. Apesar do vendedor do remédio ter orientado que a visita ao médico era desnecessária, ela resolveu consultar um ginecologista. "Fiquei com medo de ter restado algo que pudesse infeccionar e dar algum problema".
Ao mesmo tempo que vivenciava esse drama, outra pessoa da família vivia a chegada da gravidez de outra perspectiva. A secretária lembra que a cunhada engravidou e estava contente de ser uma futura mãe. "Eu não conseguia sentir essa alegria e ficava mal por isso". Se o remédio não funcionasse, Lílian acredita que iria desistir. "Não ia tentar duas vezes, passar por toda essa experiência de novo e correr o risco de nascer um filho com sequelas. Quem faz uma vez não vai querer fazer de novo".
CASO NA FAMÍLIA
A realidade está tão próxima de Lílian que já aconteceu o mesmo caso na família. "Minha mãe adotiva fez um aborto e quase morreu porque tomou o dobro do medicamento", diz a secretária. Foram necessários quinze anos para o casal conseguir ter um filho e, nesse meio tempo, perdeu o bebê em todas as gestações. Foi por isso que a mãe recomendou que Lílian não fizesse o mesmo. "Foi a coisa mais difícil que já fiz. Falar que vai abortar é fácil mas na prática é muito complicado".
A legalização do aborto é a saída que ela enxerga como o único caminho possível para evitar a clandestinidade e a morte de tantas mulheres. "Eu sempre fui a favor e ainda sou, porque fazer sozinha é a pior coisa do mundo". Mas a secretária não é tão esperançosa quando se fala na descriminalização. "A culpa sempre cai na mulher e esse machismo não vai acabar. O que eu mais leio é que se você não quer ter filho, não faça sexo. Mas vida sexual todo mundo tem e corremos riscos de engravidar, felizmente ou não".
*Nome fictício para preservar a identidade da personagem
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