"Não aconselho, mas entendo quem aborta", diz vendedora

Aos 20 anos, ela já tinha feito dois abortos e confessa que não se arrepende de nenhum deles

Texto, foto e vídeo: Guilherme Almeida

Bruna* fazia compras no supermercado. Pouco à frente, no outro corredor, um casal caminhava lentamente, enchendo o carrinho de produtos e delícias, para eles e para o filho pequeno. Mas algo chamou a atenção de Bruna. Chegando um pouco mais perto, ela viu que o pai daquela família aparentemente normal era o seu namorado, com quem mantinha um relacionamento há mais de um ano e, pior dos mundos, de quem tinha engravidado, conforme atestava o exame de sangue que estava na sua bolsa.

A jovem de 20 anos saiu do estabelecimento com cuidado para não ser notada. Tremia muito, não sabia para onde ir, sabia apenas que tinha vergonha de tudo: da família, dos passantes e principalmente de si mesma. Como pode ser tão inocente? Já ali decidiu levar adiante uma ideia na qual estava pensando desde que descobriu a gravidez: o aborto. “Eu não seria a mulher que iria acabar com uma família. Não valia a pena naquele momento”, enfatizou.

Bruna optou pelo método que "todo mundo faz": o medicamento abortivo

Mas a decepção não foi a única razão na hora de optar pelo aborto. Pensar nisso, para quem conhece a vendedora, parece até loucura. Bruna é uma mulher do tipo auto-confiante. Bonita, articulada, ela veste cores vivas e chama a atenção por onde passa. Não parece nem de longe o tipo de mulher que chora quando perde o companheiro.

Não foi só a dor da traição. Bruna também pôs na balança sua situação de vida: estava na faculdade, trabalhando, com um salário legal para a sua idade. Colocar tudo a perder estava fora de cogitação. “Não foi uma coisa que eu tive que pensar muito. Só tive a preocupação de não fazer nada que me prejudicasse mais tarde”, disse.

O dublê de namorado tentou impedi-la. Implorou para que Bruna não fizesse aquilo, que poderiam criar o filho juntos, que poderiam ser uma família. A resposta foi seca e segura: “Eu vou fazer. Você não vai me impedir”.

O primeiro passo foi procurar uma parteira. O procedimento seria na casa da própria "profissional", sem anestesia nem higiene. Diante da precariedade, Bruna recuou e optou pelo método que, segundo ela, "todo mundo faz”: o medicamento abortivo.

“Não é difícil conseguir as pílulas se você tem contatos. Eu achei que essa seria a alternativa mais segura”, confessou. Tomou o remédio três vezes, um comprimido via oral e outro inserido na vagina, na mesma semana até obter o efeito. Após a terceira tentativa, veio a forte cólica e o sangramento: “40 minutos depois, começou a sair uns pedaços”, conta. Após algumas horas, Bruna achou melhor passar por um médico. O diagnóstico foi aborto espontâneo. Aos amigos que telefonavam, ela só dizia que estava indisposta e com cólica, que não poderia sair. Depois de um tempo, os que já sabiam perguntaram “e o bebê?” e ela só respondia “tirei”. Sua preocupação não era com os outros, mas consigo mesma. “Não aconselho ninguém a passar por isso porque o aborto não é legal, mas eu entendo quem faz”, confessou.

Essa foi, na verdade, a segunda experiência de Bruna com os remédios abortivos. Aos 16 anos ela interrompeu sua primeira gestação. Relembrar o assunto não foi fácil. A jovem gaguejou, engoliu seco e de repente disparou: “Eu não tinha um motivo forte, só não queria que meus pais cuidassem de um filho meu”, assumiu.

Outro fator era a idade. Muito nova, mas certa do que queria, Bruna não concebia a ideia de constituir família com um homem por quem não era apaixonada. “Se quiser fazer o aborto, tem que ser muito decidida pra não ficar se martirizando depois”, receitou.


BOA MÃE

Hoje aos 36 anos, vendedora e com um salário muito melhor, Bruna não se arrepende de nada. Seu orgulho é a filha, de 10 anos, e a relação entre as duas.

Para ela, já estava na hora de ser mãe. “Me sentia mais preparada naquele momento”, afirmou. O casamento com o pai da criança durou seis anos, mas o relacionamento entre eles é amigável.

“Muita adolescente engravida cedo por não ter um bom relacionamento com a mãe. Não quero isso para minha filha. Se ela engravidar, serei a primeira a comprar o remédio. Ela vai decidir se quer tomar ou não, mas eu irei comprar”, enfatiza.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem
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