Equipe Um Quinto acompanha aborto em clínica clandestina

O procedimento ilegal foi realizado em um bairro de classe média de São Paulo


“Bom dia, estou aqui por indicação da Jéssica*”. Esse é o código usado para quem quer fazer um "procedimento". Procedimento, na linguagem da clínica, quer dizer aborto.

A clínica, um sobrado branco com um portão de grades e um pequeno quintal, localizada em um bairro de classe média de São Paulo, fica em uma rua com pouco movimento, cercada por alguns prédios comerciais. Na fachada, apenas uma placa com o nome dos ginecologistas que atendem no local e o horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Por dentro, a clínica é tão branca quanto por fora. Um balcão de mármore separa o "visitante" da  recepcionista. Ao lado do balcão, duas portas para os consultórios dos ginecologistas.

Procedimento, que custou R$ 1.800, durou cerca de 15 minutos

Acompanhamos Joana*, 21 anos, secretária, que optou por interromper sua gravidez de cinco semanas. “Eu não tenho condição psicológica e muito menos financeira de levar uma gravidez adiante e ainda por cima criar uma criança. Isso é a melhor solução. A única na verdade”, diz enquanto nos dirigíamos para sua consulta. Naquela manhã Joana vivia um dos momentos mais difícil de sua vida. Dentro de alguns minutos, ela faria um aborto.

Desconfiada da eficácia de métodos como os remédios e chás abortivos, Joana optou por o fazer o aborto em uma clínica que atua de forma ilegal. "Uma colega minha é amiga da sobrinha da médica. Ela me falou que esse consultório fazia. Não pensei duas vezes, aquele era o método mais certeiro e que eu correria menos riscos", conta Joana, que utilizou todas as suas economias para pagar o procedimento: R$ 1.800.

Quando soube da gravidez, a secretária procurou manter a calma. Mesmo antes do resultado teste já tinha decidido. Com o resultado em mãos, ela contou apenas para mim e para uma outra amiga, a que indicou a clínica. Decidiu não contar para o ex namorado e muito menos para sua família. " Eles iriam me julgar, e a última coisa que eu quero a essa altura é alguém me julgando". 

A consulta estava marcada para 9h de uma quarta-feira de sol. Chegamos 10 minutos antes. Não havia outras pacientes aguardando consulta.

Foi só mencionar o nome de Jéssica e a  recepcionista já sabia do que se tratava. No lugar de pegar uma das fichas sobre o balcão, a jovem tirou de dentro de uma gaveta a ficha de modelo diferenciado. Ela explicou para Joana como deveria ser preenchida,  onde tinha que informar nome, idade, tipo sanguíneo e tempo de gestação. Logo em seguida, levou o papel para a sala da médica. Depois de mais ou menos 15 minutos fomos chamadas a entrar.

A sala tinha a mesma configuração de um consultório ginecológico comum. Sentamos em torno da mesa principal, de frente para a médica. Apenas uma maca, um biombo e uma outra mesinha com alguns aparelho médicos. A médica explicou  como o procedimento seria realizado: Joana receberia uma anestesia local, no colo do útero, inserida através de uma seringa. Logo em seguida, usando um aparelho de aspiração manual, a doutora faria o esvaziamento intrauterino. Segundo a ginecologista, o método era rápido e seguro, mas somente seria feito se Joana tivesse certeza de sua decisão. Quando ela se mostrou realmente decidia a prosseguir, a médica pediu então que fosse até o biombo, retirasse a roupa e vestisse o avental ginecológico. Naquele momento tentei preencher o vazio constrangedor fazendo algumas perguntas para a médica. Perguntei se muitas mulheres procuravam o consultório com esse problema. Ela respondeu que aquilo era comum, e que, nos últimos três anos, realizou pelo menos dois procedimentos por mês.

Quando Joana voltou, a doutora pediu para que ela se deitasse na maca que logo começaria o procedimento. Em nenhum momento foi falada a palavra aborto no consultório. Apenas "procedimento".

Fiquei ao lado dela enquanto o aborto era realizado. Ao injetar o anestésico, Joana apertou minha mão. Naquele momento não estava mais ali como repórter, preocupada apenas em fazer uma boa matéria, mas sim como amiga, como alguém em quem ela confiava para compartilhar sua dor em um momento delicado. A médica perguntou se estava tudo bem e se poderia continuar. Joana assentiu com a cabeça. Ela então pegou o tal aspirador e o introduziu em seu útero. Joana não sentia dor, apenas um desconforto, conforme relatou à médica. Ela então fez a sucção de todo o conteúdo que estava no útero. Menos de 15 minutos depois tudo havia acabado. Joana voltou para o biombo, ainda meio cambaleante, e colocou sua roupa novamente.

Saímos do consultório pouco depois das 10h e pegamos um táxi até a casa de Joana, que ficava uns 10 minutos dali. Sua expressão permaneceu serena durante todo o caminho. “Alívio. Me sinto aliviada, sabe. Parece que um peso saiu das minhas costas. Agora posso seguir minha vida.”, disse ao chegarmos em sua casa. 

Dois dias depois, falei com ela novamente. Estava bem, feliz, e tentava não pensar no que havia acontecido. Não teve nenhuma complicação e voltou a fazer tudo o que fazia antes. Ela disse que pretende falar para a família o que fez algum dia, mas por enquanto acha melhor não tocar mais nesse assunto. “Não me arrependo da minha decisão, eu sei que foi melhor assim. Mas é inevitável pensar ‘e se?’. Acho que até por isso é melhor eu não falar mais sobre por um tempo”.

* Nomes fictícios para preservar as identidades das personagens
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