S.L.N., 51 anos, analista de sistemas

"Me senti usada", revela



Engravidei por acidente, em uma fase bem complicada da relação. Estava com 26 anos, tinha recém-reatado meu casamento após um amarga separação, tentando superar, com a relação ainda fragilizada, uma filha pequena. Situação financeira complicada, sem contar que eu era recém-contratada em um novo trabalho e jamais tinha pensado em ter mais do que um filho. Enfim, de comum acordo e sem dramas, o aborto foi a decisão tomada.

Na época, meados dos anos 1980, era muito conhecido um medicamento para gastrite utilizado para fins abortivos. Procurei uma amiga dona de farmácia, mas como ela não comercializava, me indicou uma outra farmácia, onde ela sabia que o produto era vendido.

Fui sozinha até o local no bairro do Gonzaga, em Santos, e fui atendida por um balconista. Ao explicar o que eu queria ele me encaminhou para a sala de aplicação de injeção. Ali naquele cubículo me perguntou se eu tinha certeza da gravidez, tempo de atraso da menstruação e então disse que precisava examinar meus seios para saber o tempo da gestação. Tinha certeza absoluta de que tal exame não era necessário, mas como você se sente em uma situação de total dependência da boa vontade do indivíduo em te vender algo ilegal, você cede. Me senti usada e nunca entendi como um idiota sente prazer em tocar os seios de uma mulher visivelmente contrariada e desconfortável. Me vendeu o remédio, me disse como utilizar e eu sumi dali.

Ao comentar com a minha amiga dona da farmácia ela concordou comigo que não havia mesmo necessidade do tal "exame".

Na mesma noite utilizei a medicação como ele me instruiu, não tive nenhuma complicação. Passei pelo pronto-socorro na manhã seguinte. Claro que omiti o uso da medicação, aleguei um sangramento inesperado. Fiz ultrassom e foi constatado que eu havia abortado. Não houve necessidade de curetagem, foi tranquilo. No dia seguinte estava trabalhando normalmente.

Recentemente quando imaginei que minha filha (hoje adulta) pudesse saber dessa história por outra pessoa que não fosse eu, tomei a decisão de contar a ela, omitindo a parte do "exame". Ao saber, ela chorou bastante e isso me tocou.

Então, dessa história sobraram duas marcas: a sensação de me sentir invadida pelo balconista de farmácia e as lágrimas da minha filha.

Mesmo com essas marcas e até pelos rumos que a vida tomou (realmente acabei me separando definitivamente logo em seguida), não tenho arrependimentos, não me culpo, sei que foi a decisão mais acertada e não tenho nenhum problema em relação a isso.

* Os depoimentos são enviados ao site por mulheres que já tiveram experiência com o aborto. Compartilhe sua história! Clique aqui para saber mais.
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