C.M., 26, estudante

“Se tivessem me arrancado algum membro, não teria doído tanto”



Na época eu tinha 18 anos. Foi com o meu primeiro namorado. Engravidei por negligência mesmo, naquela do coito interrompido. Pensava “se eu não engravidei até hoje, fazer de novo não vai ser problema”, mas daquela vez foi. Quando descobri, já estava de seis semanas.

Por ser muito pobre, adolescente, assustada, optei por não contar a ninguém, só para o meu namorado da época. Decidi interromper a gravidez.

Tomei um chá abortivo, uma mistura de ervas que eu comprei em uma dessas casas que vendem folhas que tem muito aqui em Salvador (BA). Foi horrível. Tive que ficar em jejum um dia inteiro, minha pressão caiu e quase vomitei na hora. Até hoje não consigo nem sentir o cheiro daquela erva. O tal chá me deixou com muito sangramento e achei, na minha ignorância, que tinha ocorrido o aborto.

Quando estava de oito semanas, fiz o teste novamente e continuava grávida. No desespero, procurei um amigo, que a namorada dele já tinha recorrido a um aborto e ele me indicou uma clínica.

Era no Centro Histórico de Salvador. Paguei 400 reais na época, e o procedimento foi traumático. Naquela altura eu já sentia as intercorrências da gravidez: enjoo, desejo, então a minha percepção sobre aquilo foi mudando.

Considerei abrir o jogo para a minha mãe. Mas meu namorado era muito bem visto por ela e não queria manchar essa imagem. Ele me convenceu levar adiante a ideia do aborto. Dizia “Como você já tomou o chá pode ser que a criança nasça com alguma deficiência”. Tentei por muito tempo não colocá-lo como único vilão, mas sei que eu estava emocionalmente desequilibrada e que qualquer palavra poderia influenciar no meu jeito de agir. O fato é que optei por dar continuidade ao procedimento.

Fui à clínica, paguei e fiz o aborto. No primeiro dia não tinha muito que fazer, acho que eles só dilatavam. Voltei para casa e dormi, mas acordei com muita dor. Saí para o trabalho, mas fui direto para a clínica. Mal consegui andar porque a dor estava insuportável.

Meu namorado não foi comigo. Ele era da aeronáutica e disse que estava de plantão, mas depois descobri que se quisesse, ele poderia ter feito permuta com algum colega. Acabou que eu fiquei sozinha de novo, sentindo muita dor. Fiz curetagem sem anestesia, porque tomei várias injeções e nenhuma deu certo.

Não consigo nem mensurar o tamanho da dor que senti. Acho que se tivessem arrancado algum membro meu não teria doído tanto. Depois da curetagem fiquei deitada, tomando soro. Eu cheguei por volta das oito horas da manhã e a dor só cessou depois das cinco da tarde. Após isso tive muito sangramento e com o tempo a coisa foi se estabilizando.

Fora a dor, uma das coisas mais traumáticas foi o sentimento de culpa por ter feito o procedimento sem certeza do que eu realmente queria. E silêncio, porque eu não podia falar com ninguém, nem com minhas amigas, mesmo porque meu namorado pediu segredo absoluto.

Passei por um período de depressão. Tive pesadelos, com agulhas furando o meu corpo. Até hoje eu tenho dificuldades em falar sobre isso. Passei anos me sentindo muito culpada. Nosso relacionamento não vingou porque depois daquilo criei um tipo de repulsa pelo meu ex.

Sou feminista ativista desde os 13 anos, mas passar por isso me marcou porque foi algo que eu não tive certeza se queria levar a diante, foi algo que fiz no silêncio, sozinha, com muita dor. Hoje tenho 26 e já consigo falar melhor sobre o meu aborto. Por ter passado por todo esse sofrimento sempre tento usar a minha experiência para ajudar mulheres que passam pela mesma situação.

* Os depoimentos são enviados ao site por mulheres que já tiveram experiência com o aborto. Compartilhe sua história! Clique aqui para saber mais.
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