O caminho do aborto clandestino


Repórteres do site Um Quinto tiveram contato com fornecedores de métodos abortivos por meio de redes sociais
Por: Juliana Duarte e Dannielly Costa

O início da busca

Neste momento uma mulher pode estar se submetendo a um aborto e correndo risco de morrer após o procedimento. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), conduzida pelos professores da Universidade de Brasília, Débora Diniz e Marcelo Medeiros, a cada dois dias uma brasileira é vitima fatal de um abortamento mal sucedido. Como elas chegam a esses locais e métodos não é segredo. Afinal, os inúmeros meios para se interromper uma gravidez são velhos conhecidos.

Mulheres que já abortaram estão por todos os lados e formam uma eficiente rede de contatos e de solidariedade. Se você conhece cinco pessoas do sexo feminino acima de quarenta anos, pode ter certeza que uma delas já interrompeu a gravidez pelo menos uma vez na vida. Chás, clínicas, remédios e até por força de objetos introduzidos na vagina, anualmente 1 milhão de mulheres passam por essa experiência muitas vezes dolorosa, traumática, quase sempre inesquecível e fatal para cerca de 70 mil mulheres no mundo, também por ano.

Para provar que os métodos abortivos estão mais perto de nós do que imaginamos, as repórteres do site Um Quinto simularam uma gravidez e partiram a procura de um remédio abortivo ou de uma clínica que fizesse o procedimento. Na primeira busca, na internet, entre páginas online e redes sociais, encontramos 10 pessoas oferecendo "facilidades abortivas" e obtivemos repostas de seis delas. O mercado realmente funciona.



Usamos a seguinte estratégia: iniciamos as buscas pelo Google. Lá encontramos um formulário online para solicitação de um medicamento abortivo. A página não continha dados do vendedor, nem endereço físico e nem detalhes de como a entrega seria feita. O formulário pedia número de documentos pessoais dos interessados, como CPF, RG e telefone. Muito a se fornecer a alguém que não nos oferece identificação alguma. Ainda assim, corremos o risco e atendemos o solicitado. Pista falsa. Até o fechamento desta matéria não obtivemos retorno.

O próximo destino foram as redes sociais. Em um grupo de trocas e vendas com quase 85 mil membros, uma espécie de feira online onde os participantes anunciam produtos de todos os tipos, postamos o pedido de indicação de uma clínica que "oferecesse um serviço especial" ou um remédio a base de misoprostol. Em nenhum momento escrevemos as palavras "aborto" ou "gravidez". O objetivo era testar até onde as mulheres estariam antenadas sobre os métodos. Apesar das ofensas nos comentários públicos, as mensagens privadas ofereceram acolhimento e informação quente.

A busca nas redes sociais
Todas as respostas que recebemos, vale a pena ressaltar, foram de mulheres. As mais solícitas foram Jaíne* e Alessandra*. A primeira apenas perguntou se precisávamos daquele remédio e quantas semanas tinha a gestação. "A tia de um 'amigo' trabalha em uma farmácia e um tempo atrás arrumou para mim", confessou. Respondemos com interesse mas não tivemos mais retorno.

Já a outra foi ainda mais solícita. A conversa durou cerca de uma semana, com quase 100 mensagens trocadas e duas ligações por telefone. As informações solicitadas foram as mesmas: tempo de gestação e quantos comprimidos seriam necessários. Assim como a anterior, ela conhecia alguém que poderia vender o medicamento. "Não sei sua condição, mas é em torno de 500 reais", informou.

Alessandra ofereceu mais que o serviço. Ela não queria vender apenas o remédio, como também oferecer acompanhamento. Além das instruções, informou que só forneceria o medicamento se pudesse fazer parte do 'ritual'. "Se algo der errado, minha consciência vai ficar pesada", falou.

Talvez até sem ter plena consciência do que estava fazendo, Alessandra exerceu aquilo que as feministas intitulam "sororidade". O termo é usado para definir o pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs em uma dimensão ética, política e na prática do feminismo. Alessandra poderia ter recebido seu dinheiro sem qualquer apego, mas preferiu não deixar aquela mulher grávida entrar para as duras estastísticas de morte decorrente de abortos mal-sucedidos.

Como não iríamos realizar a compra, não conversamos mais com Alessandra. Apenas falamos que, caso decidíssemos realmente pelo medicamento, entraríamos em contato com ela novamente.

95% dos abortos realizados na América Latina são inseguros

Conversa com clínica clandestina

De volta ao Google recomeçamos a busca. Queríamos indicação de uma clínica, algo mais difícil do que o medicamento. Sabíamos que elas existem aos montes, mas maioria usa o disfarce de uma clínica ginecológica comum. Pesquisando pelo termo "clínica aborto" ainda no Facebook, encontramos sete páginas, a maioria com endereço físico em São Paulo. Após conversa rápida por mensagem privada, quatro responderam, mas apenas duas nos passaram um contato: uma informou o endereço de e-mail e, outra, o telefone.

Ligamos para o celular indicado. Ana* nos atendeu e logo informamos o que desejávamos. Na imagem de perfil, uma montagem com a frase "enfermagem por amor". A conversa não deu certo. A atendente estava em um local barulhento, provavelmente em seu plantão no hospital.

Após duas tentativas prejudicadas pelo ruído, continuamos a combinar "o negócio" por mensagens de texto e de voz. Antes de qualquer informação, Ana tratou de adiantar como era o método. "Parece um exame de papanicolau e você vai sentir apenas uma leve cólica". Sem anestesia, o procedimento é feito na casa dela por R$ 1.800. Não era necessário marcar uma pré-consulta. O método seria feito um dia após o agendamento, com pagamento em dinheiro. A grávida poderia levar um acompanhante, que não deveria estar na sala durante o procedimento.



Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 22 milhões de abortos inseguros são realizados anualmente em todo o mundo
Naturalmente não fechamos o negócio, mas entendemos que, se o serviço fosse de fato necessário, talvez o serviço executado por Ana parecia se apromixar dos chamados "açougues humano", como são conhecidas algumas clínicas clandestinas.

Nossa pesquisa avançou quando nos deparamos com Joana*, 21 anos, colega de uma das repórteres. Estudante de administração, ela estava na quinta semana de gestação e decidida a interromper a gravidez. Cada passo de Joana foi acompanhado de perto pela nossa equipe de reportagem.

Pelo mesmo valor da "enfermagem por amor", Joana teve acesso ao procedimento em uma clínica ginecológica limpa, organizada e tranquila, instalada em uma rua pacata de um bairro de classe média de São Paulo. "Minha colega conhece a sobrinha da médica. Ela me falou que esse consultório fazia. Não pensei duas vezes, acho que aqui vou correr menos riscos", calculou Joana no caminho para a clínica.

A ginecologista que atendeu Joana, sem saber da presença da repórter, comentou que, nos últimos três anos, tem realizado pelo menos dois abortos por mês na clínica, que de fato atendia outras especialidades ginecológicas. O consultório é frequentado por mulheres de classe média de alguns dos bairros mais conhecidos da Zona Sul da capital.

O procedimento é feito em uma maca, num ambiente limpo, com anestesia local, aparelhos esterilizados e com todo o suporte para caso aconteça alguma emergência. Mesmo sendo ilegal, é notável a preocupação para que tudo ocorra da melhor maneira possível para a paciente.

A preocupação da clínica já pode ser vista na ficha que é preenchida assim que a paciente chega, onde deve informar o tipo sanguíneo e, caso esteja sozinha, também um número de telefone de algum conhecido para contato. Caso esteja acompanhada, a pessoa pode entrar na sala e acompanhar o procedimento, que dura menos de 15 minutos. A paciente sai andando e praticamente sem dor. Pelo menos foi assim com Joana. Ela não teve complicações e, por sorte, não entrou para a estatística de mulheres que morrem por conta do abortamento ilegal no Brasil.

Dois dias depois, a reportagem voltou a falar com Joana. Ela estava bem, não teve nenhuma complicação. No dia seguinte ao procedimento já voltou a estudar e trabalhar normalmente. "Foi tudo muito tranquilo. Desde o início eu tinha plena consciência do que estava fazendo. Não me arrependo".


* Nomes fictícios para preservar as identidades dos personagens
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